Tribuna de Petrópolis

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A Campanha da Fraternidade

Por: Ataualpa A. P. Filho - Escritor
15/04/2017
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Tradicionalmente no período da Quaresma, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolhe um tema e promove reflexões sobre a realidade que vivemos. Neste ano, o tema escolhido foi: “Biomas brasileiros e a defesa da vida”. Tendo como lema: “Cultivar e guarda a criação” (Gn. 2.15). O objetivo geral dessa campanha apontou o “cuidar da criação de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos à luz do Evangelho.”

Esse é mais um tema centrado na defesa da natureza. E dessa vez, destacou os seis biomas brasileiros:  a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Isso mostra a diversidade territorial e cultural do Brasil. 

Desde o período colonial, o “agronegócio” olha para a natureza com interesses comerciais. Aqui o primeiro produto explorado foi o pau-brasil, depois houve a exploração da cana-de-açúcar, do algodão, da borracha, do café. Mas sempre visando prioritariamente o mercado externo. Lembro até do período em que o Governo Federal usou a seguinte frase: “exportar é o que importa”.  Nessa esteira comercial voltada para a exportação, temos o ouro, o ferro, alumínio e outros minerais que servem de fonte de enriquecimento. 

 Na época do descobrimento, Pero Vaz de Caminho, na carta enviada ao rei de Portugal, escrevera: “a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”.

O emprego do adjetivo “infindas”, na época, talvez não fosse visto com a conotação de uma hipérbole, diante da beleza das diversas bacias hidrográficas. Mas hoje, sofremos com as consequências do uso irracional dos recursos hídricos. Perdemos o belo fenômeno da pororoca na região amazônica. O rio São Francisco, o Velho Chico, sofre um grande assoreamento. Em alguns trechos, a navegação se tornou difícil. O mesmo acontece com o rio Parnaíba, o Velho Monge. Este viu a minha infância, nele mergulhei muitos sonhos...

A poluição jogada nos afluentes do rio Paraíba coloca em risco muitas vidas que dependem dele. O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, foi um desastre ecológico no vale do Rio Doce, região que foi atingida pela febre amarela, transmitida pelo mosquito aedes aegypti.  

Houve um período em que o homem se protegia dos fenômenos da natureza, hoje é preciso proteger a natureza das ações predatória do homem, movidas pela ganância do vil metal. Isso tem contribuído para a descaracterização dos biomas. São visíveis as mudanças climáticas que afetam as plantações. 

Estamos chegando ao final do período da quaresma, tenho a sensação de que o tema da Campanha da Fraternidade deste ano não teve uma discussão aprofundada. Talvez isso se deva aos fatos políticos que têm mobilizado a opinião pública. 

Considero a preservação dos biomas brasileiros de extrema importância, porque, em cada região, há muitas famílias que dependem da agricultura e da pecuária para sobreviver, ou seja, vivem do trabalho com a terra. A fome e a miséria ameaçam várias comunidades nas regiões atingidas pela seca ou por enchentes. 

Acredito no crescimento sustentável. Não é incompatível o desenvolvimento econômico com a preservação da natureza. 

Nesta páscoa, vamos pensar nessa coroa de espinho colocada na cabeça de Cristo. É a mesma que se encontra na vida dos pobres.