Tribuna de Petrópolis

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Avaliar Cadernos

Por: Oazinguito Ferreira da Silveira Filho - Professor e mestre em Educação
08/11/2017
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Uma senhora todos os dias realizava docilmente o mesmo percurso para almoçar em um restaurante de bairro, hábitos que não se transformam com a idade. Em bate-papo informal sobre valores, educação, surpreendem, aparecendo ao dia seguinte com um caderno velho comprovando o último ano do “curso primário” que frequentara. Aos olhos de outros, surpreenderia pela retidão da caligrafia sobreposta quase desenhada, tarefas discriminadas, consultas realizadas, e a mais surpreendente prova de competência comprovada pelos “vistos” de suas professoras junto a elogios pelo trabalho realizado, características pertinentes à conclusão de tarefas e dedicação. Uma caderneta acompanhava, alternância de cobrança de leituras cotidianas, prática comum à época.

Para “dona Vera” (*) o resultado não teria sido alcançado, tão somente por seu esforço e de sua mestra, também de uma mãe operária, todos os dias a acompanhar, mesmo sem entender tarefas escolares por pouca instrução, postava-se orgulhosa quando sua filha se destacava por elogios seguidos das professoras.

Lembrei-me de conversas com Maria Campos, mestra, lenda no ensino de didática, discussões intermináveis e constatações pela acuidade do trabalho das “normalistas”, comportamento diferenciado das pedagogas. Mestras com bolsas à mão, repletas por cadernos de alunos, para avaliação fora do expediente exaustivo, mas realizado com carinho, dedicação. Algumas pedagogas, mais políticas em sua formação, dispensam singularidades educacionais tradicionais.

“Dona Vera”, nonagenária, guardava o caderno como relíquia, tesouro que resgatava currículo de vida, infância, cultura escolar, patrimônio educacional inquestionável, suma de confiabilidade quando se discute “valores” comparados, resultado de apropriações realizadas.

A contextualização da valorização dos cadernos de alunos como “ferramenta de trabalho” cotidiano do magistério que ora se torna extinto, por tal apresentamos tanto escritas como leituras desprovidas de fundamentos que nos levam a observar a relativização dos valores na sociedade contemporânea.

Sabemos o quanto, anotações feitas por alunos revelam práticas de ensino dos docentes, mesmo para atualidade existam diversas formas possíveis para acompanhar o trabalho dos docentes. Porem, avaliação dos cadernos é uma das mais interessantes, reveladoras.

Revelam práticas de ensino de épocas que se eternizam nas práticas culturais de escolas, indícios da aprendizagem, estrutura das aulas, práticas cotidianas de pedagogia.  Bálsamo para pais que se preocupavam com educação de valores em um mundo tão turbulento, onde a escrita e leitura devem ser resgatados como bens sagrados.

Obvio que não devem servir a radicalismos inexpressivos que denunciam extremismos na forma de pensar negando direitos humanos, mas de encaminhar discussões relevantes sobre educação de valores no cotidiano apontando para mudanças de estratégias pedagógicas utilizadas em conteúdos trabalhados, eliminando a carência de atividades de fixação, identificando habilidades de leitura, hoje inexistentes oceano de analfabetos operacionais.