Tribuna de Petrópolis

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Distopia, gosto amargo de fel

Por: Fernando Costa - Advogado e jornalista
06/09/2017
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Sonhar é preciso para tornar a vida menos árida e mais feliz. Prefiro não me tomar de distopia porque no dia em que deixar fenecer a esperança e a utopia tudo será vazio e sem graça. Nos anos sessenta vi e ouvi o rufar de tambores, os fuzis de artilharia e tanques de guerra. Confesso que aos dez anos não entendia a dimensão do que estava a acontecer. O tempo passou e tomei consciência que se tratava de uma revolução. Vi o povo nas ruas, pessoas presas, espancadas, pais desesperados, o espocar das balas e estampidos, choros e ranger de dentes... 

Os jornais noticiavam timidamente ante as proibições. As poucas TV preto e branco com suas imagens em chuviscos denunciavam o que podiam. Era o tempo da censura... Época dos artistas da tropicália, (Caetano, Gil, Gal, Bethânia), calças “saint tropez”, rádios a pilha, lambretas e calça jeans. Os jovens falaram em revolução social, inovação da gramática, criaram neologismos e a música, arte e o teatro alcançaram essa mudança de costumes. O Brasil também queria transformar o mundo influenciado pelos Beatles, Elvis Presley e outros mais e tais manifestações eram traduzidas aos festivais que superlotavam o Maracanãzinho. A juventude começou a traçar projetos e bater de frente com a ditadura. Surgiu a bossa-nova e com ela as inovações também no cinema.

 Quantos morreram ou sumiram? Hoje vislumbramos um País sombrio. Cruzes! Lembra aquela época. Parecem querer matar a nossa esperança. Desejam sufocar os nossos sonhos, a utopia e, enquanto isso o povo parece entorpecido pela distopia. Não podemos deixar que a indiferença se apossasse de nós. Queira Deus isso não ocorra porque se correria o risco de se ver sufocado o que mataria de vez o ideal. Não somos um povo dotado de indiferença e imobilidade, ao contrário, temos fé. Realmente o que se vê e ouve causa indignação e nos reporta ao Livro do Eclesiastes (1,8-9) que pontifica: “todas as palavras estão gastas...” Precisamos ser mais fortes que as falcatruas, os maus exemplos e o desamor. A Terra de Santa Cruz está subjugada a meia dúzia de empresas que têm mais poder que o Estado e a Federação. Causam entraves e impedem ao país que caminhe com os seus próprios pés. Mais de duzentos milhões de compatriotas carecem de educação, alimento, saneamento básico, saúde, emprego e dignidade...

 À primeira porta prometem salvação, sorte, sucesso e muito dinheiro... Falseiam com juras das portas do céu sem liturgia e ao arrepio da teologia. A caridade ficou para trás enquanto os espertalhões se abocanham de milhões à custa do suor do pobre operário que conta seus tostões tendo de se privar do suado pão. Diversos púlpitos alardeiam que “é a vontade de Deus” e que a gente pobre precisa se resignar. Não é verdade quando esses inescrupulosos dizem isso. Pregam na teoria e na prática levam uma vida de nababo. O Senhor criou o homem para ser feliz. Nesta linha de raciocínio aguarda-se o milagre, no entanto, na calada da noite engavetam os gastos excessivos, manobras são articuladas em meio aos conchavos políticos e muita corrupção. 

Nos meios intelectuais fala-se em neoliberalismo. Rezemos por um líder. O povo se encontra como ovelhas sem pastor. Surja ele repleto em bonança e bons propósitos. Possamos reviver os tempos bíblicos sem a pretensão de que em nossa Pátria corram leite e mel ao sofredor e faminto de justiça como nos tempos descritos no Livro de Êxodos (33,3). Não lhe soneguem o alimento, a paz e o amor.