Tribuna de Petrópolis

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Gravetinho

Por: Angelo Romero - Escritor
12/07/2017
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É fato notório que o cachorro é o melhor amigo do homem; vai daí que, os amantes de uma boa bebida, chegam a garantir que o uísque é o cachorro engarrafado. Nasci e durante meus primeiros treze anos de vida morei num antigo casarão, no Rio de Janeiro, ao lado dos principais membros de minha família, ou seja: pais, avós paternos, tios, tias e primas. Preciso dizer que tive uma infância feliz? E para completar essa felicidade, sempre criamos alguns belos e interessantes cachorros. Dentre eles, destaco o Rony, um inteligente Fox Terrier, que sabia até os dias da semana. 

Por esse motivo, prefiro morar em casa do que em apartamento onde a liberdade, tanto do animal, quanto a do morador, torna-se prejudicada. Os primeiros anos em Petrópolis, morei em apartamento. Porém, ao mudar-me para uma boa casa, adotei de imediato um cachorro – Chaplin, como homenagem ao meu maior ídolo das artes cênicas. Chaplin, como todo cachorro da raça labrador, é muito bonito com seu pelo negro sedoso e com seu focinho estiloso. Entretanto, a falta de segurança de uma casa habitada por um idoso casal, fez com que, diante de uma ameaça de invasão, tivéssemos de nos desfazer de nosso melhor amigo. Apesar da tristeza e da saudade que não nos abandona, sabemos que Chaplin vive muito bem cuidado num pequeno sítio pros lados de Secretário. Por duas vezes fomos visitá-lo. Sua reação nos surpreendeu. 

Apesar de nos receber com prazer e reconhecimento, nos fez perceber certo desconforto e incompreensão por tê-lo doado. Reação quase humana. Hoje li, num dos principais jornais do Rio, que a notável escritora Nélida Pinõn está inconsolável com a morte de Gravetinho, seu cãozinho de estimação. E para provar seu grande amor por seu animal de estimação ela contou que, dia desses, olhando em direção de Gravetinho, falou: “Olha pra mim, Gravetinho, presta atenção – a partir de hoje você é tão dono deste apartamento quanto eu; prometo que se alguma coisa me acontecer, o seu futuro estará garantido”. Gravetinho partiu antes. Morreu de pneumonia anteontem, e deixou uma viúva, Suzy, pincher, como ele, e quatro anos mais nova. Compreendo e compartilho de sua dor, Nélia. Já tive perdas iguais e o cachorro, por ser considerado o melhor amigo do homem, pode-se dizer que passa a ser um membro da família. Meu grande poeta e amigo Sylvio Adalberto possui um labrador negro. Quando vou visitá-lo, eu acaricio seu cão, como se estivesse acariciando meu Chaplin.