Tribuna de Petrópolis

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Driblando a dor da perda

Por: Virgínia Ferreira - Psicanalista e professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis
06/12/2016
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 Hoje, falarei sobre a vida, porém, a partir de uma perspectiva árida, mas muito real. O que é a vida senão o enfrentamento de uma série de perdas diárias? Perdemos a beleza do corpo, que está fadado à decadência e à falência; perdemos o emprego, alguns sonhos; perdemos pessoas que nos abandonam propositadamente, outras que nos abandonam nada intencionalmente, porque morreram; perdemos o carro porque roubaram, e a segurança para a violência.

Cada dia que vivemos é menos um dia que, no futuro, viveremos.  Que sufoco!!! Fato é que há sempre uma perda contra nossa vontade. Sempre. Cada perda exige um luto. Via de regra, as pessoas perdem e seguem driblando a dor da perda, como se ela significasse pouco. Perdeu a beleza do corpo, recorre ao bisturi; perde o emprego, diz que já era hora de sair e arrumar outro; perde um sonho, constrói outro; perdem pessoas que as abandonam propositadamente, diz que há males que vêm para o bem; perdeu o carro num roubo, dá graças a Deus por ter ficado viva, e assim se vai vivendo.

Mas, quando diante da perda por morte, o drible fica difícil ou até mesmo impossível. Se a pessoa que morreu era idosa ou estava muito doente, o drible é difícil, mas possível. Ele se traduz através da seguinte afirmativa: descansou. Se a pessoa que morreu era jovem, a dor e o inconformismo tomam conta. O drible só acontece com o tempo. Mas, diante das tragédias, quando dezenas de pessoas morrem juntas como no caso do desastre com a Chapecoense, a dor é insuportável, a comoção é grande.

Parece que é diante de uma tragédia que as pessoas se confrontam com a morte. Mas, quando digo tragédia, estou me referindo às tragédias não anunciadas. Isso porque as anunciadas não causam comoção. Por exemplo: quantas crianças morrem diariamente na África de fome? Quantos civis morrem vítimas dos confrontos no Oriente Médio? Quantas pessoas morrem em chacinas no Brasil?  

Tenho a impressão que as tragédias anunciadas são banalizadas, como se a perda de uma vida na tragédia anunciada tivesse menos valor do que a perda numa não anunciada. Não. A vida humana tem igual valor. Gostaria de ressaltar que respeito e me solidarizo com todas as famílias das pessoas que morreram no acidente aéreo. Bem, independentemente da perda, há sempre um luto que deve ser vivido. Inaugurar um luto e vivê-lo não significa que se deve mergulhar na dor e se fechar para a vida. Significa se permitir sentir a dor.

Toda perda traz em si sofrimento, dor, desconforto, e esses sentimentos precisam ser vividos. É difícil, mas necessário. Todo e qualquer sentimento precisa ser vivido. A repressão dos sentimentos antecipa a própria morte através das doenças físicas ou psíquicas ou pode representar a própria morte, a existencial, aquela que faz da pessoa uma morta viva.

Muitas vezes, quando a vida de um ser muito amado é interrompida pela morte, somos apresentados a uma dor da qual nunca mais conseguimos nos livrar. A partir dessa dor, que nos acompanhará até a nossa própria morte, temos duas saídas: ou a partir da dor nos alegramos e nos orgulhamos por ter tido o privilégio de ter amado ou sucumbimos à dor.

Finalizo este texto dizendo que quem foi apresentado ao amor, um dia, será apresentado à dor: a morte. Mas, se a vida é como uma moeda em constante rodopio, em constante movimento, a face do amor dará movimento à vida cada vez que a face da dor se apresentar.