Tribuna de Petrópolis

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Mais um brasileirinho

Por: Ataualpa A. P. Filho/Escritor
13/06/2016
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Em 24 de julho de 1988, foi publicado no jornal Petrópolis Post, uma crônica com o título “A Morte de Brasileirinho”. O texto falava do assassinato de um menino com as iniciais do nome F.S.. Desde os 11 anos, andava armado nas vielas da Rocinha. Na época, era o mascote do grupo que liderava o tráfico nessa comunidade do Rio de Janeiro. Ele foi morto aos 13 anos pela Operação Mosaico II, no Morro do Grotão, no Engenho Pequeno, em São Gonçalo.

Lembrei-me desse caso, quando li a notícia de que duas crianças, uma de 10 e outra de 11 anos, invadiram um prédio em São Paulo e roubaram um carro. E segundo noticiários, não se sabe ainda se houve troca de tiros. O certo é que o menino mais novo foi baleado e morto por policiais. O outro sofreu ferimentos leves, foi apreendido e devolvido à família, pois só a partir de 12 anos é possível ser internado na Fundação Casa. Esta foi criada para aplicar medidas socioeducativas a menores infratores.

A citada crônica, que escrevi movido pela rebeldia dos meus vinte e poucos anos, iniciava assim:

“Os jornais exibem a foto do menor apelidado de Brasileirinho morto no meio do matagal, tido como um dos líderes do tráfico de drogas no morro da Rocinha.

Com menos destaque, os jornais falavam de um outro menor que tremia de frio e de fome em uma calçada de Copacabana. Este menor, pela promessa de comida e agasalho, foi levado a um apartamento em Ipanema. Logo em seguida, o menor se expõe sobre a janela, nu da cintura para baixo, ameaçando pular, pois segundo ele, estava sendo ameaçado de estupro. (...)

Sempre me interessei pelo personagem Brasileirinho, não só pelo apelido, mas pelo símbolo que ele representa: eis o típico exemplo de uma sociedade que não valoriza a educação infantil. Eis um exemplo do produto do desequilíbrio socioeconômico do terceiro mundo. Lembram de Pixote? Não vejo ficção em ‘O Meu Guri’ de Chico Buarque. Quantos Brasileirinhos ainda serão mortos pela polícia? A fábrica que produz brasileirinhos está funcionando a todo vapor. As favelas ainda estão ‘ao Deus dará’. E, para ser mais enfático na evidência desse paradoxo, relembro que os jornais apontavam o Secretário Regional de Administração do IAPAS como suspeito da tentativa de estupro ao menor de dez anos, (IAPAS - órgão ligado à Previdência Social).

Será que estes baixinhos fazem parte da turma da Xuxa? Muitas madames se assustam quando um menor negro se aproxima delas. Às vezes, fico pensando: o que estas senhoras fazem para que estas crianças não tenham a aparência de pivete? Para que não sintam a necessidade de roubar para comer? Para que não percam os seus sonhos de criança? Brasileirinhos também são feitos pela omissão dos nossos governantes e de cada um de nós.”

E mais uma vez, constata-se que a fábrica de “Brasileirinhos” ainda funciona a todo vapor e a cultura do estupro permanece fazendo vítimas. Quando a realidade grita nos jornais, a sociedade sempre se choca. O pai da criança falecida está preso e a mãe já esteve presa por furto. O garoto passou várias vezes pelo Conselho Tutelar de São Paulo.

A meu ver, essa criança é vítima. Não acredito que a delinquência venha no DNA. O sistema social em que vivemos é que produz isso. Continuaremos a lamentar assassinatos de menores, se não houver uma mobilização para reverter esse quadro com uma estrutura educacional eficiente, com amparo às famílias carentes, com criação de emprego distante da política assistencialista, eleitoreira. Sem escola, sem uma estrutura familiar, dificilmente uma criança cresce sem frustrar seus sonhos.