Tribuna de Petrópolis

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O dia da mentira e Romilda

Por: José Afonso B. de Guedes Vaz - Advogado
13/04/2017
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Na última segunda-feira tive o ensejo de rever um grande amigo, diga-se de passagem, de longa data; aliás, pai e irmão também se destacaram na condição de inesquecíveis amizades que perduraram por longos anos, até que o Criador os fez partir.

O pai, o corretíssimo Samuel Corrêa dos Santos e o filho o não menos, Mario Jorge, figuras com os quais nossa família teve o privilégio de conviver.

O amigo a quem, com imensa satisfação, acolhi para uma conversa que perdurou por mais de uma hora, outro filho querido de Samuel, o advogado Humberto Côrrea dos Santos que, também, nos fez lembrar a esposa, já falecida, Laurici Almeida dos Santos, emérita professora.

Durante o nosso “papo”, quase que interminável, recordamos nossas famílias, a Petrópolis de décadas passadas, além de termos conversado sobre todo o clã do amigo, relembrando, especialmente, Laurici.

A esposa, que partiu há muitos anos, deixou uma enorme lacuna na família de Humberto, a começar pelo próprio, como filhos e netos; perda irreparável.

Com o falecimento da esposa, relatou-me o amigo que acabou passando por gozar da companhia de uma querida irmã, que a seu lado permanece para alegria de toda a família.

Entretanto, Humberto deixou-me registrada uma questão extremamente cativante e dígna de alusão.

Trata-se, na verdade, da boa e caridosa Romilda que se juntou à família ainda ao tempo de Laurici; essa criatura aproximou-se do sagrado lar de Humberto, no longínquo ano de mil novecentos e noventa e sete, justamente para prestar serviços à mesma.

Àquela época, segundo relatou-me Humberto, a esposa acolheu Romilda e esta acabou admitida para auxiliá-los nas tarefas domésticas, tendo se destacando, desde logo, não como uma serviçal, mas como fraterna amiga da casa.

O curioso desta narrativa é que Romilda, segundo Humberto, apresentou-se no dia 1º de abril, dia consagrado como da mentira; Laurici, imediatamente, considerou-a como contratada; ocorre que a data, “dia da mentira”, fez com que a bondosa Romilda houvesse solicitado à “patroa” que sua contratação se concretizasse, somente, a partir do dia seguinte.

O pedido, todavia, foi negado e sua admissão levada a termo a contar do dia 1º de abril.

O fato que cabe registro, entretanto, guardado dentro do grande coração do amigo, vem à tona, após transcorridos vinte anos de excelentes serviços prestados, eis que Romilda permanece com Humberto, sua querida irmã, além filhos e netos do “velho” batalhador, conduzindo ao entendimento de que o dia 1º de abril deva ser considerado como da verdade, da amizade, da dedicação e, sobretudo, da lealdade.

Permito-me, ao terminar estas linhas, relembrar o poeta, na certeza de que Romilda ainda deva guardar na lembrança a saudosa Laurici, exatamente como escreveu Guedes Vaz, pleno de emoção e sentimento:

“Embora cheia de gente, / nossa casa parecia, / sem você ali presente, / complemente vazia”.