Tribuna de Petrópolis

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Prendam suas cabritas que meu Uber está solto

Por: Rebeca Gehren
01/09/2017
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Preparando o artigo da coluna desta semana sobre a nossa última viagem, deparei-me na internet com uma viagem rotineira, de volta para casa, que deveria ter sido tranquila, mas que acabou em tragédia. O caso da escritora Clara Averbuck, que foi estuprada dentro de um Uber em São Paulo merece, no mínimo, o espaço desta semana. Não porque ela seja vítima, mas porque o caso reflete, mais uma vez, uma das facetas doentias da nossa cultura no Brasil.

Gostaria que todos os homens no mundo (e em especial neste país) entendessem de uma vez por todas que não há situação ALGUMA que justifique um abuso sexual. Bebida, roupa ou atitude, nada. Isso pelo simples fato de que se trata de um outro ser humano e de que relações sexuais só devem ser CONSENSUAIS. Simples assim. Pode ser? Ou está difícil ainda de entender?

O fato do motorista do Uber em questão ter decidido estuprar a passageira porque ela estava bêbada revela um tipo de pensamento muito característico da mentalidade de boa parte da nossa sociedade, que é o cara que se sente no direito de se aproveitar de uma situação de vulnerabilidade da mulher, afinal “ela que não se protegeu”. Ele se sente no direito de acessar o corpo da mulher porque “ela que não se cuidou”, “ela que não vigiou”, “ela que não se deu o respeito”. Que sociedade é essa onde as mulheres devem viver se protegendo dos homens? Só viver não basta, não?

Essa é, infelizmente, a sociedade brasileira. Uma sociedade em que pais e mães criam suas filhas mulheres para se comportar direito, mas não criam seus filhos homens para ter limites. É o velho ditado que mamães e papais repetem, rindo, para os pais da amiguinha do filho na escola: “Prendam suas cabritas, que meu bode está solto”. Esse tipo de criação gera esse tipo de aberração no futuro: homens que simplesmente não sabem que o corpo da mulher não é uma extensão do seu próprio corpo; não sabem que não, eles não têm o direito de acessar o corpo delas, caso elas estejam “vulneráveis”, como cabritas soltas no campo – livres, diga-se de passagem.

Além disso, o fato do motorista do Uber ter decidido estuprar a passageira, mesmo sabendo que seu emprego estaria em risco (uma vez que o aplicativo traz todas as informações do profissional e permite total interação por parte dos clientes), deixa clara a certeza da impunidade. Casos de violência sexual ainda não são tratados com seriedade neste país – vide o outro caso, que também ocorreu esta semana, do homem que ejaculou em uma mulher dentro de um ônibus na Avenida Paulista, em São Paulo, que já havia passado cinco vezes pela polícia por suspeita de estupro, mas nunca havia ido a julgamento, e foi, mais uma vez, solto. Ou ainda o caso de assédio sexual dentro de um BRT no Rio de Janeiro, que ocorreu ontem (31), e o cara também acabou ejaculando nela. E por aí vai… Quantos casos mais precisarão ocorrer para que a legislação leve a sério esse problema social? É um sistema que não funciona!

Termino, dizendo que não tenho nada contra o Uber. Sou usuária e vou continuar sendo. A empresa não tem nada a ver com o mal causado nessa situação e, sim, homens (e mulheres também) com essa mentalidade, que trabalham em todo lugar.


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(Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Jornal Tribuna de Petrópolis.)