Tribuna de Petrópolis

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Sem acordo, greve dos rodoviários continua , afirma categoria

Por: Janaina do Carmo
16/05/2017
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Fotos: Marco Oddone e Rebeca Gehren / Tribuna de Petrópolis

Pela segunda vez neste ano, Petrópolis amanheceu sem transporte público. A greve anunciada pelos rodoviários na semana passada teve, hoje (16), grande adesão da categoria e, no fim da manhã, toda a frota de ônibus da cidade parou de circular. A paralisação teve início nos primeiros minutos da madrugada, com mobilização ainda nas garagens e no terminal do Centro, onde piquetes foram montados pelos grevistas. Até o dia amanhecer, nenhum veículo entrou em operação. A categoria reivindica 8% de reajuste salarial, com data base de 1° de março (e pagamento retroativo), além de R$ 70 a mais na cesta básica. 

A paralisação afetou mais de 80 mil usuários e deve continuar amanhã (17), pelo menos até a realização de assembleia para votar a nova proposta de reajuste salarial do Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários de Petrópolis (Setranspetro), apresentada informalmente hoje à noite. A categoria espera a oficialização da oferta de 6% de reajuste, o que deve ser feito pela manhã de amanhã. Só depois de a proposta ser oficializada, a categoria se reunirá para a assembleia e decidirá pela manutenção ou não da greve. 

“Nosso reajuste estava vinculado ao aumento da passagem. A tarifa aumentou mais de 11%. Se não aumentarem o nosso salário de forma justa, então que retornem a passagem para R$ 3,50. Nossa reivindicação é justa e estamos aqui lutando pelos nossos direitos”, disse um rodoviário.

Nas primeiras horas da manhã, cerca de 33% da frota estava circulando, mas muitos eram abordados pelos grevistas no trajeto, que chegou a ser alterado a fim de garantir a manutenção do serviço. Alguns carros  tiveram os pneus esvaziados para que não circulassem.  A ação dos grevistas levou o Setranspetro a determinar que os coletivos fossem recolhidos para as garagens, mas os manifestantes impediram a saída dos carros do terminal. 

“Daqui eles não saem e nós também não, até que alguém venha dialogar e negociar com a gente”, disse um rodoviário. “Não temos apoio do nosso sindicato. Três rodoviários foram demitidos logo após uma assembleia em que decretamos a greve e o sindicato nada fez. Somos perseguidos e sofremos ameaças dentro das empresas de ônibus e o sindicato nunca se posiciona ao nosso favor”, lamentou outro motorista.

Só no fim da tarde, com uma liminar que garantia o direito de greve em mãos, os rodoviários deixaram o local e permitiram a saída dos ônibus. Em nota, o sindicato ressaltou que “a situação do transporte só será normalizada quando houver condições de segurança para os rodoviários, passageiros e veículos circularem”. O sindicato ainda garantiu que está tomando todas as medidas necessárias para restabelecer a regularidade do transporte na cidade e “evitar mais prejuízos econômicos e sociais para os petropolitanos”.

A funcionária do setor de higienização do Hospital Alcides Carneiro (HAC), Isabel Goes, de 53 anos, conseguiu chegar ao centro da cidade mas, após quase três horas de espera pelo coletivo que a levaria a Corrêas, ela desistiu. “Venho do Rio de Janeiro, pela Serra Velha. Consegui pegar o ônibus da Petro Ita que passa pelo Alto da Serra, mas quando cheguei próximo ao Terminal do Centro os motoristas falaram para descer que não haveria mais viagens. Estou desde as 6h aguardando o 600 para me levar para Corrêas, mas já desisti. Liguei avisando que vou voltar para casa”, disse..

Mudança no trajeto

No início da manhã, para tentar furar a greve e evitar que os coletivos chegassem ao Terminal do Centro, as empresas alteraram o trajeto de algumas linhas. Os ônibus da Petro Ita, por exemplo, fizeram o embarque e o desembarque na Rua Marechal Deodoro, seguindo depois pelas ruas do Imperador e Dr. Nelson de Sá Earp em direção aos bairros. Já os coletivos da Cidade Real paravam na Washington Luis (próximo a uma padaria) e também seguiam pela Dr. Nelson de Sá Earp em direção ao Bingen e Mosela. Os ônibus das empresas Cidade das Hortênsias e Turb, que atendem aos bairros, também conseguiram circular. Os veículos saiam dos terminais do Itamarati, Corrêas e Itaipava sem passar pelo Centro. “Por enquanto não estamos autorizando a irem para o Centro para evitar que fiquem parados no terminal”, informou um fiscal que estava no Itamarati.

O secretário geral do Sindicato dos Rodoviários, Paulo Pacheco, confirmou que a greve aconteceu sem “anuência” do sindicato, mas garantiu que a entidade estava “do lado dos trabalhadores”. “Recebemos uma medida cautelar da Prefeitura na quinta-feira obrigando que 80% da frota circulasse sob multa de R$ 50 mil por dia para o sindicato. Hoje (ontem) recebemos outra liminar, dessa vez da Turb, com multa de R$ 20 mil por hora. Não podemos estar lá no terminal com os rodoviários porque essas liminares estão valendo”, explicou o sindicalista. Paulo Pacheco disse que estava recorrendo da liminar concedida em favor da Turb, mas não soube informar se a entidade tntou reverter a medida cautelar que chegou na última quinta-feira, obrigando que a circulação de 80% da frota ontem.

Sem o apoio do sindicato que representa a categoria, os presidentes dos sindicatos dos Têxteis e dos Vestuários, Wanilton Reis e Jorge Mussel, declararam apoio aos rodoviários. “Somos solidários a eles. Soubemos que estão acontecendo demissões por represálias e ameaças. Algumas empresas não depositaram o Fundo de Garantia e há vários processos na justiça. É uma luta de classe”, disse  Wanilton Reis. A categoria também teve o apoio dos vereadores Leandro Azevedo (que acompanhou os rodoviários desde o início da paralisação, ainda de madrugada) e Marcelo da Pró-Deficiente. Movimentos populares e estudantis também acompanharam e apoiaram a ação.

A negociação salarial da categoria começou em março, início da data base dos rodoviários. Na época, a proposta dos trabalhadores foi de 11% de aumento. O Setranspetro alegou que não poderia conceder aumento salarial sem que houvesse reajuste da tarifa de ônibus. Após dois meses sem negociações, o prefeito Bernardo Rossi autorizou o aumento da passagem, de R$ 3,50 para R$ 3,90 para quem paga em dinheiro e R$ 3,80 para quem utiliza o cartão RioCard. A nova tarifa passou a vigorar no dia nove. Com isso, o Setranspetro propôs um aumento salarial de 4% que foi negado pela categoria. 

Em uma nova rodada de negociação os trabalhadores pediram então 8% de reajuste o que também não foi aceito pelos empresários. A última proposta feita pelo Setranspetro é de 5% de aumento sobre os salários, além de 14% na cesta básica e abono de 5% sobre o salário de fevereiro, referente ao mês de abril, para ser pago até o fim deste mês. 

“Estão nos devendo 2% de aumento na data base de 2015, a reposição da inflação é de 4,5% e pedimos 1,5% de ganho real. Somando esses valores chegamos ao pedido de 8% de aumento”, explicou um rodoviário, acrescentando que a categoria também luta por melhores condições de trabalho e a readmissão dos funcionários demitidos por represália das empresas.

Prefeitura emite nota

À noite, a Prefeitura emitiu nota na qual informa que “o prefeito Bernardo Rossi encaminhou mensagem ao sindicato das empresas de transporte da cidade para que, ainda na noite desta terça-feira, empreenda mais uma negociação com os rodoviários e as partes cheguem a um consenso acordando o dissídio salarial da categoria”. Na nota, o governo municipal informa, ainda, que “concedeu o reajuste máximo apontado tecnicamente pelas planilhas elaboradas pela CPTrans, empresa que gerencia o transporte público coletivo da cidade, recusando reajuste proposto pelas empresas que aumentaria a tarifa para R$ 4,32”. A Prefeitura finaliza o texto afirmando que a tarifa a R$ 3,90, reajustada no início do mês, garante o equilíbrio econômico-financeiro do sistema e seu recolhimento para 100 mil viagens/dia na cidade assegura a recomposição do salário dos rodoviários.

Veja as fotos do dia da greve




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