Tribuna de Petrópolis

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Um vexame

Por: Paulo Figueiredo - Advogado e jornalista
05/09/2017
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A quem se queixava do Congresso Nacional – Câmara e Senado –, Ulysses Guimarães dizia que não se surpreendesse com o próximo a ser eleito, certamente pior. Tinha razão o velho timoneiro da reconstrução democrática no Brasil. Com os anos cavou-se ainda mais no parlamento brasileiro o fosso da corrupção, da política rasteira do toma lá dá cá e da ausência de compromissos mínimos com os anseios nacionais.

Independente do Mensalão, de outras práticas violadoras da moral e da ética orquestradas pelo lulopetismo e da recente rejeição do processo contra Michel Temer, em procedimentos sempre azeitados com farta distribuição de recursos públicos, veja-se o que acontece agora com a questão da reforma política. A falta de recato e o cinismo atingem níveis inimagináveis e aceleram a distância, já hoje considerável, ente a sociedade e sua representação política, com sérios riscos para o processo de consolidação do regime democrático.

Vicente Cândido, deputado federal do PT, passou cerca de dois longos anos em profundas reflexões sobre o tema da reforma e terminou onde começou, no ponto zero da escala. Com ares de sacristão de paróquia do interior, numa candura de dar dó e na maior ingenuidade do mundo, acenou com a proposta de instituição de um fundo para financiamento de campanhas eleitorais da ordem de 3,6 bilhões, como se vivêssemos num mar de rosas. Mostrou-se indiferente à tragédia que alcança setores nevrálgicos da administração pública, especialmente nas áreas da segurança e da saúde. Fechou os olhos diante da violência que explode sem limites nas grandes metrópoles, onde milhares de pacientes morrem na indigência dos corredores dos hospitais públicos. Na mixórdia geral, projetos como o distritão, o distritão jabuticaba e outras indecências, que apenas guardam aparência de mudança, tão somente para que nada realmente mude, com espelho nas reflexões históricas de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

Temerosos de dura resposta nas urnas de 2018, desde logo antevista, “suas excelências” deixarão que o sistema continue operando sob as mesmas regras, mais uma vez de costas para a Nação. Tudo indica que a Câmara não votará sequer o fim das coligações nas eleições proporcionais e a imposição da cláusula de barreira, já aprovadas pelo Senado Federal. Assim, perderemos a oportunidade de conter essa enxurrada de partidos políticos, siglas familiares e de balcão, na partilha do fundo partidário e na comercialização do sufrágio e de espaços nas redes de comunicação. Propostas modernizantes que consultem demandas legítimas do melhor do pensamento brasileiro, com a adoção do voto distrital e do distrital misto, são deixadas de lado, impedindo que se avance com um sistema político que propicie a representação efetiva da sociedade.

Resolver a equação que inquieta democratas viscerais, dentre os quais me incluo, é o grande desafio a ser formulado na seguinte indagação: como compatibilizar um projeto duradouro de desenvolvimento econômico e social do país com o regime democrático, com a atual classe política? Com o Centrão e outros pequenos centros de mercantilização da ação política, partidos de aluguel e demais delinquentes, será impossível chegar a bom termo. Na balança das discussões no Congresso, reformas vitais para que o Brasil supere a crise herdada do lulopetismo não são votadas e aprovadas, enquanto não saciados os apetites vorazes do fisiologismo de deputados e senadores. É um vexame.

paulofigueiredo@uol.com.br