Tribuna de Petrópolis

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Uma lembrança retratada

Por: Ataualpa A. P. Filho - Escritor
13/11/2017
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“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Essa conhecidíssima frase que está no livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, deixa claro que há uma percepção da realidade que não se restringe aos aspectos concretos, palpáveis. Os fatos podem ser vistos por outra ótica, na qual predomine a subjetividade. E, nesse âmbito, a sensibilidade é mais evidenciada, porque traz consigo a poesia. No imaginário poético, a criação é irrestrita, o homem se apresenta como uma criatura capaz de criar. E a Arte é que melhor traduz a inquietude humana.

Quando Fernando Augusto Magno afirma, no livro “Era Setembro e Madrugava”, que “nem sempre a perda da visão nos leva a não enxergar”, tem a certeza de que é possível ir além do que a retina capta. Coração e mente veem por um ângulo que toca a alma. Na citada obra, ele diz: “tornei-me poeta carregando o mundo para além dos olhos”.

Esse mundo que está “além dos olhos”, o referido autor traz na lembrança com minuciosos detalhes. Certifiquei-me disso quando assisti à leitura dramatizada de “Era Setembro e Madrugava” pela Companhia Teatral Pessoal Aí. Vi, por outro foco de luz, imagens que dinamizam a narrativa. Como esta, na obra, apresenta-se em primeira pessoa, a adaptação para a leitura dramatizada foi estruturada em forma de monólogo, que ora é levado pela voz de um ator, ora pela voz de uma atriz, sem perder a ternura lírica. Fato este inerente à prosa poética. Há capítulos em que a conotação sobrepõe o sentido denotativo. 

O autor não se limitou a descrever a realidade como ela se apresenta, mas como ele a sente, por uma subjetividade impressionista, repleta de sinestesia. A cor, o perfume, a sonoridade, em síntese, as imagens sensoriais revelam o vínculo que se estabelece entre o narrador-personagem e o meio em que se encontra, seja no rio, no mar, na terra ou navio em que embarcou.

Fernando Magno narra a viagem que fez, quando menino, de Manaus a Portugal. Tanto o leitor quanto o espectador viajam juntos em “Era Setembro e Madrugava”. No mínimo, são feitas duas viagens: uma por rios e mares, outra pelas águas das lembranças que seguem também em ondas, com a vida impregnada de lições de saudades. 

Conversei informalmente com a Pita Cavalcanti e com o Sylvio Costa Filho, que fizeram a leitura do texto de Fernando Magno. Ambos falaram da densidade emotiva das imagens que passaram para a plateia. Fizeram um exercício de muita concentração e uma imersão na linguagem literária e cênica para traduzir esse passado tão presente que tomou corpo e vida no palco. No texto, não há clima de suspense e mistério, nem há conflito existencialista angustiante. A serenidade da poesia apascenta a alma.

“Alaga-se de sol o sorriso do menino”. Este guia o homem. “Acordava-se em mim o navio na manhã”. Nele, viajamos pelo azul das paisagens que o menino guarda dentro do homem. Todo porto é seguro, quando se carrega dentro de si o equilíbrio da paz.

Quando a Arte Literária e a Arte Cênica se encontram e caminham de mãos dadas, o belo pode ter uma concepção efêmera, mas fica evidente a diretriz da eternidade, porque a vida é retratada por uma ótica que externa esta linha que une o céu e o mar no horizonte dos sonhos.

- Não espere, navegue. A vida continua. Cada um segue na velocidade dos remos que possui. Os ventos e as ondas talvez existam para trazer as emoções para as nossas viagens. Ah! Não se esqueça de a-mar. Neste ato, mantém-se erguida a vela da esperança sem deixar espaço para a solidão. O viver é travessia..