Tribuna de Petrópolis

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Vontade divina

Por: Raquel Cordeiro da Cruz - Professora
19/04/2017
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À faculdade de representar mentalmente um ato que pode ser ou não praticado em obediência a um impulso ou a motivos ditados pela razão, o dicionário chama de vontade. E ainda acrescenta que vontade pode ser o sentimento que incita alguém a atingir o fim que essa faculdade propõe; pode ser também uma capacidade de escolha, de decisão ou um desejo expresso, etc.

Esses significados dizem respeito à vontade manifestada por qualquer ser humano desde a sua mais tenra idade até a idade adulta. Quando bebê, a vontade obedece a impulsos. À medida que o indivíduo se desenvolve suas tendências (vontades inatas) vão dando lugar a decisões, bem como a desejos expressos oriundos de influências (vontades aprendidas) dentro dos diversos ambientes sociais por ele frequentado. Segundo o discernimento de cada um, escolhe-se, decide-se por coisas boas ou más.  Com certo esforço e violência contra impulsos negativos vai-se educando as tendências (o inato), assimilando as boas influências (o aprendido). Processo esse que acompanha o ser humano ao longo de sua vida. Em função dessa experiência alicerçada em valores cristãos atinge-se a maturidade. Caso contrário, o indivíduo na idade madura pode encontrar dificuldade de se conduzir na vida por falta de elevação espiritual.

Uma criança que adquire o hábito de rezar ao seu anjo da guarda todos os dias, sente-se  protegida pelo fato de lhe ter sido repassado esse referencial de proteção. A sua vontade humana de ser protegida obedece àquele motivo ordenado pela razão, levando-a a obedecer a uma vontade superior à dela (ao Senhor que lhe proporciona um anjo auxiliador em quem deve confiar), o que pode determinar a continuidade desse hábito quando jovem ou adulto. O amadurecimento na fé e no respeito ao Senhor resulta da consciência de que a vontade de Deus está acima de suas vontades e expectativas. Afinal, o Senhor tem sempre algo melhor a oferecer, mais do que aquilo que se possa desejar. A oração que nasce das raízes da alma obtém graças inimagináveis, mesmo que ela viva o seu deserto espiritual. Ela deve obedecer humildemente, confiar, esperar, sem desanimar.

Para que o Senhor se manifeste é preciso que quem reza tenha a consciência da presença de Deus.  Ele é, então, todo ouvidos!

O exemplo mais perfeito de entrega total da alma ao Pai é o pronunciado por Jesus em sua paixão :  “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça como eu quero, mas sim o que tu queres (Mt 26, 39).

Tendo sofrido todo tipo de provação humana, ao dirigir-se ao Pai, Cristo suplica e é atendido pela misericórdia e obediência. A oração do “Pai Nosso ensina: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu...” Ora, muitos rezam, às vezes, sem se darem conta da magnitude  das palavras que pronunciam. Dificilmente  serão atendidos se estiverem desanimados : “Vós não fostes capazes de fazer uma hora de vigília comigo... Vigiai e rezai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mt 26, 41)

Com a alma enfraquecida, Pedro, discípulo de Jesus Cristo, lança mão da espada para ferir o servo de sumo sacerdote.  Depois foge com outros discípulos. Por fim nega que conhece Jesus e chora amargamente...  Assim se comporta o homem em geral. Após a ressurreição de Jesus, Pedro converte-se e passa a merecer a maior recompensa: a vida em Deus na terra e no céu.

É pelo Espírito Santo que o cristão vislumbra o pensamento ou a vontade de Deus.  Atente-se para o fato de que nem toda ideia aparentemente boa é tida como boa pelo Senhor. Ele permite que se pense e se faça isso ou aquilo, mas nem sempre o deseja. A forma ideal de se viver a vontade de Deus-Pai, Jesus, Homem-Deus a ensina: “De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. (...) porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (Jo 5,30)

O difícil é reconhecer quando se quer fazer apenas a própria vontade ou quando se é totalmente desprovido de vontade! A submissão à vontade divina é possível, porque Deus imprimiu no coração de toda criatura humana a lei do amor, possibilitando o bom uso da liberdade! Basta ao filho querer ser bom como o Pai, como o Dileto o foi!

As obras são realizadas a partir da fé aliada à vontade.  Ambas fizeram da Virgem Maria a serva fiel, a escrava obediente que gerou por obra do  Espírito Santo o Filho de Deus;  com Ele o reino sem fim pensado no céu foi inaugurado na terra !

Paulo apóstolo de Cristo (2 Cor 3-6) explica aos que pretendem se capacitar espiritualmente que nossa vontade subordina-se à vontade de Deus : “Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos (cheio de vontade? ). Nossa capacidade vem de Deus...”

O mundo nos conduz a falsas e efêmeras alegrias; às vezes à morte antecipada.  Muitos que se unem à multidão, cuja fé é superficial e vacilante em relação ao Único Senhor, acabam encontrando ídolos, substitutos do bezerro de ouro adorado pelo povo hebreu incrédulo (A.T.).   As seitas diversas decorrem, em parte, da imaturidade na fé; desvirtuam e dividem o reino aqui embaixo.  O Reino lá encima é único e indivisível.  Jesus Cristo fundou a Igreja (Católica=Universal).  Ele é o único Pastor de um único rebanho.  Ele sempre condenou disputas entre irmãos, famílias, povos e nações !

Em plena quaresma peçamos a Jesus Cristo que a vontade e a luz divinas penetrem em todo coração humano para tirá-lo das trevas gerada pelo pecado.  O Mandamento do Amor da Nova Aliança (N.T.) sejam, doravante, seguidos em quaisquer circunstâncias, restabelecendo a paz em todas as almas no seio das famílias do mundo inteiro !